Plínio Sussekind Rocha

O professor Plínio Sussekind Rocha esteve durante mais de três décadas associado ao ensino de Física no Rio de Janeiro. Dando o seu nome à Biblioteca do Instituto de Física queremos assim homenageá-lo, assim como a todos que ensinaram e pesquisaram em nosso Instituto, e em seus antecessores, desde 1935. Como veremos, explicar quem ele foi nos levará não apenas à história da Física e da Universidade brasileiras mas à própria história do Brasil de 1935 a 1972, quando morreu.

Em 1935, participou como assistente do professor Bernhard Gross, da Seção de Física da Escola de Ciências da Universidade do Distrito Federal (UDF), organizada pela prefeitura do Distrito Federal, assim como de pesquisas experimentais no Instituto de Tecnologia, futuro Instituto Nacional de Tecnologia (INT). Como informa Gross no artigo acima, em 1934 Plínio, então professor municipal em Marechal Hermes e professor do Instituto de Educação, começou a participar em seu laboratório, medindo a absorção dielétrica em sólidos, um problema de interesse da Light.

O corpo docente da Universidade do Distrito Federal representava o que havia de melhor da intelectualidade brasileira em quase todas as áreas. Basta dizer que Heitor Villa-Lobos, Candido Portinari, Lúcio Costa, Cecília Meirelles, Gilberto Freire, Arthur Ramos, Hermes Lima, Anísio Teixeira, Lélio Gama e um outro dos pioneiros da Física experimental no Brasil, Joaquim da Costa Ribeiro, estavam entre seus 54 professores. A proposta dessa Universidade era a de uma ampla integração entre as suas escolas componentes e entre o ato de ensinar e o de pesquisar.

Com o golpe do Estado Novo em 1937 essa Universidade foi fechada e muitos de seus docentes foram transferidos para a então Universidade do Brasil (UB), futura Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A maior parte foi para a Faculdade Nacional de Filosofia, a FNFi, criada para abrigá-los. O professor Plínio foi então estudar na França, voltando em 1941 e, em junho de 1942, nomeado catedrático de “Mecânica Racional, Mecânica Celeste e Física Matemática” da FNFi.

Nos 27 anos subsequentes, o primeiro aspecto marcante do professor Plínio foi a sua dedicação ao ensino e aos alunos, o seu interesse em orientá-los, em comprar revistas didáticas, etc. O segundo era o seu interesse em Filosofia da Ciência, tendo ministrado disciplinas e formado pessoas. O terceiro, e talvez o que mais mostrava que um professor universitário é mais que um super-especialista, era o seu interesse pelo cinema: como cinéfilo recuperou o filme Limite, um dos primeiros filmes brasileiros, obra do cineasta Mário Peixoto. Plínio possuía cópia de filmes raros, dos quais organizava exibições. Alguns de seus alunos se tornaram cineastas, entre eles destacando-se Joaquim Pedro de Andrade.

O amplo leque de interesses do professor Plínio era simbólico da própria FNFi. Nela, apesar do nome “Filosofia”, as mais variadas áreas do conhecimento estavam representadas, da Letras à Química, da Matemática à Sociologia, mantendo a vontade de integração universitária da UDF. Externamente, no entanto, a Universidade do Brasil era formada por escolas profissionalizantes independentes, administradas pelas suas congregações de catedráticos, em geral refratários às atividades de pesquisa. A insatisfação com esta situação levou, posteriormente, docentes de diversas escolas, como a Faculdade de Medicina, a Escola de Química e a Escola de Engenharia, a organizar unidades com ênfase na pesquisa como o Instituto de Biofísica e a Coordenação dos Programas de Pós-Graduação em Engenharia (COPPE). Mas continuava a falta de coordenação entre as escolas, cada uma possuindo seus departamentos de Física, Matemática, etc. A FNFi era apenas mais uma escola profissionalizante, formando pesquisadores e professores de segundo grau. Durante as décadas de 1940 e 1950 o restante da UB contrastava com a FNFi em relação à importância da pesquisa e à integração universitária. Fenômeno similar ocorreu na década de 1930 na Universidade de São Paulo (USP), quando a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, que forneceria os cursos básicos para todos os alunos, também foi transformada numa escola profissionalizante, similar à FNFi.

Embora com limitações e com a rigidez do sistema de cátedras, a FNFi foi pioneira na pesquisa universitária no Brasil não apenas na área de ciências físicas, como também na Matemática, na Antropologia, etc. Suas instalações físicas eram precárias mas havia a vontade de realizar pesquisa e de formar bem os seus alunos, o que levou os seus docentes a organizar o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), o Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA) e o próprio Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Em fins da década de 50 começou a ser criticado o modelo das faculdades de filosofia as quais integrava áreas muito distintas. O mesmo ocorria com o modelo das universidades, compostas por unidades quase autônomas. Enquanto em 1937 a pesquisa básica tinha sido confinada às “Faculdades de Filosofia”, em fins da década de 60 elas foram fragmentadas, cada parte fundindo-se com os departamentos correspondentes das escolas tradicionais: Medicina, Engenharia, Arquitetura, etc. Assim, em 1964 decidiu-se a dissolução da FNFi e criaram-se vários institutos, entre eles o Instituto de Física (IF). Em 1964 havia argumentos racionais para dissolver a FNFi, como tinha havido em 1937 para acabar com sua antecessora a UDF, mas nos dois casos houve também o objetivo de eliminar a contestação, real ou suposta, a governos autoritários (veja o texto dos Atos Institucionais, assim como da lei de anistia aos crimes políticos.). No caso da Física da FNFi, quase todos os seus professores foram demitidos, entre eles Plínio Sussekind, que foi cassado em 1969 pelo Ato Institucional Nº 5 (AI-5). (Veja o texto da cassação, obtido do  Livro Negro da USP).

Dito isto, a reforma universitária feita em 1968 contemplava muitas das propostas dos que queriam uma universidade dinâmica e integrada, e que vinham desde a época da UDF nos anos 30: a pesquisa agora era reconhecida como atividade essencial numa universidade e as unidades responsáveis pela pesquisa básica seriam também responsáveis pelo seu ensino em toda a universidade. Infelizmente isso veio acompanhado do afastamento de muitos docentes que por isso tinham lutado.

Finalmente, o professor Plínio morreu em 1972. Homenageando-o estamos também homenageando todos esses pioneiros que procuraram e procuram realizar atividades de ensino e de pesquisa de alto nível, dentro de um espírito de integração universitária. As universidades brasileiras de hoje, e a UFRJ em particular, muito lhes deve.

 Este texto foi escrito por L. F. S. Coelho e muitas das informações sobre a FNFi foram obtidas do livro Faculdade Nacional de Filosofia, coordenado por Maria de Lourdes de A. Fávero, Editora UFRJ, 4 volumes (1989). Outras foram obtidas em conversas com ex-colegas e ex-alunos do professor Plínio. Foi também consultada uma pasta de processos administrativos associados a solicitações suas, fornecida pela secretária Rosana Valente Soutinho, que está organizando o arquivo do Instituto de Física.

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